Estamos ficando mais velhos — e mais de direita?
Envelhecer não nos torna necessariamente mais de direita; muda, sobretudo, aquilo que passamos a considerar prioridade.
Há uma ideia repetida com frequência no debate político: à medida que envelhecemos, tornamo-nos mais conservadores. A frase parece fazer sentido. Com o passar dos anos, acumulamos patrimônio, responsabilidades familiares, preocupações com segurança, estabilidade econômica, impostos, saúde e aposentadoria. Seria natural imaginar que essas mudanças levassem o eleitor, pouco a pouco, para posições mais à direita. Mas os dados mostram que a realidade é bem mais complexa. O eleitorado brasileiro está, de fato, envelhecendo. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o número de eleitores com 60 anos ou mais passou de 32,89 milhões em 2022 para 37,46 milhões em 2026. São aproximadamente 4,57 milhões de eleitores idosos a mais em apenas quatro anos. Esse grupo representava 21,02% do eleitorado em 2022. Em 2026, já corresponde a 23,60% dos brasileiros aptos a votar. Enquanto isso, a participação dos eleitores entre 21 e 34 anos caiu de 28,01% para 25,85%. O Brasil eleitoral está ficando mais velho. Mas isso significa que o Brasil está ficando mais de direita? O problema de confundir idade com geração Um estudo publicado em junho de 2024 na revista científica Frontiers in Political Science ajuda a responder essa pergunta. O cientista político Roderik Rekker, das universidades Radboud e de Gotemburgo, analisou 258 pesquisas eleitorais realizadas em 21 democracias ocidentais, abrangendo eleições entre 1948 e 2021 e mais de 462 mil entrevistados. A pesquisa, intitulada Electoral change through generational replacement: An age-period-cohort analysis of vote choice across 21 countries between 1948 and 2021, procurou justamente separar três fatores que frequentemente são confundidos: idade, geração e momento histórico. A conclusão é especialmente interessante. Existe, sim, um pequeno efeito associado ao envelhecimento: pessoas acima dos 64 anos mostraram uma probabilidade ligeiramente maior de votar em partidos conservadores tradicionais. Mas o efeito é muito pequeno. Segundo o estudo, as diferenças observadas entre gerações são muito mais relevantes do que a mudança provocada simplesmente pelo envelhecimento. Há ainda um resultado curioso: o apoio à extrema direita não aumenta necessariamente com a idade. No conjunto analisado, as pessoas se tornavam ligeiramente menos propensas a votar em partidos de extrema direita à medida que envelheciam. Portanto, a ideia de que todo jovem começa progressista e termina conservador não encontra sustentação simples na evidência disponível. Um jovem de hoje não é apenas um idoso de amanhã Essa distinção é fundamental. Um brasileiro com 70 anos em 2026 viveu politicamente a ditadura militar, a redemocratização, a hiperinflação, o Plano Real, as crises econômicas e toda a trajetória política da Nova República. Um eleitor de 20 anos nasceu em um mundo completamente diferente. Sua formação política aconteceu em meio à internet, redes sociais, smartphones, influenciadores digitais, polarização política e circulação instantânea de informação. Quando um jovem de 20 anos e uma pessoa de 70 votam de maneiras diferentes, portanto, não podemos concluir imediatamente que isso acontece porque um é jovem e o outro é velho. Eles pertencem a gerações distintas, que foram formadas por experiências históricas completamente diferentes. É o chamado efeito geracional. E a pesquisa de Rekker mostra que esse fenômeno pode ser mais poderoso que o próprio envelhecimento. O Brasil de 2018 parecia confirmar a tese A eleição presidencial de 2018 oferece um exemplo interessante. Pesquisa Datafolha realizada no início do segundo turno mostrava Jair Bolsonaro com 46% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos, contra 41% de Fernando Haddad. Entre os eleitores mais velhos, Bolsonaro aparecia com 50%, enquanto Haddad registrava 32%. O candidato também possuía vantagem expressiva na faixa etária intermediária seguinte. Observando apenas aquela fotografia, seria fácil concluir que existia uma relação direta entre aumento da idade e apoio à direita. Mas política raramente funciona de forma tão linear. Quatro anos depois, o desenho mudou Em agosto de 2022, a distribuição eleitoral por faixa etária apresentava outro cenário. Segundo o Datafolha, Lula tinha 51% das intenções de voto entre os eleitores de 16 a 24 anos, enquanto Jair Bolsonaro registrava 28%. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, Lula também liderava: 44% contra 33% de Bolsonaro. Portanto, o eleitorado idoso não havia se transformado simplesmente em um bloco eleitoral de direita. E isso mostra uma questão importante. Se o envelhecimento levasse automaticamente o eleitor para a direita, seria esperado observar um comportamento progressivamente mais conservador conforme aumentasse a idade. Não é isso que os dados brasileiros mostram de forma constante. Idade é apenas uma variável No mesmo levantamento de 2022, outras divisões sociais apresentavam diferenças eleitorais ainda mais fortes. Entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, Lula registrava 55%, enquanto Bolsonaro tinha 23%. Na faixa entre cinco e dez salários mínimos, o cenário se invertia: Bolsonaro tinha 47%, contra 34% de Lula. Entre evangélicos, Bolsonaro registrava 49%, contra 32% de Lula. Esses números mostram que idade é apenas uma das variáveis capazes de explicar comportamento eleitoral. Renda, religião, escolaridade, região, profissão e contexto econômico também possuem enorme importância. Um eleitor de 65 anos, de baixa renda, residente no Nordeste, pode ter comportamento político completamente diferente de outro eleitor da mesma idade, de alta renda, residente no Sul ou Sudeste. Os dois possuem a mesma idade. Mas vivem realidades sociais diferentes. Talvez estejamos fazendo a pergunta errada Por isso, a pergunta mais interessante talvez não seja: “As pessoas ficam mais de direita quando envelhecem?” A pergunta deveria ser: “O que acontece com a política quando uma sociedade inteira envelhece?” Essa mudança de perspectiva altera completamente a discussão. Uma sociedade mais velha tende a dar maior importância a determinados temas. Saúde. Previdência. Segurança. Inflação. Custo de vida. Patrimônio. Estabilidade institucional. Aposentadoria. Tributação. Mas essas preocupações não pertencem exclusivamente à direita ou à esquerda. Uma pessoa pode defender posições conservadoras em determinados costumes e, simultaneamente, apoiar um Estado forte na saúde e na Previdência. Pode defender políticas rigorosas de segurança pública e, ao mesmo tempo, exigir ampliação de programas sociais. Pode querer menos impostos sobre seu patrimônio e maior investimento público em hospitais. O eleitor real não cabe perfeitamente nas categorias ideológicas tradicionais. O verdadeiro fenômeno de 2026 Há, entretanto, um dado objetivo que deveria chamar a atenção de qualquer partido político brasileiro. Em 2026, o Brasil possui aproximadamente 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Destes, cerca de 37,46 milhões têm 60 anos ou mais. Isso significa que praticamente um em cada quatro eleitores brasileiros já pertence a essa faixa etária. E, considerando a transformação demográfica brasileira, esse grupo continuará adquirindo peso eleitoral nas próximas décadas. O fenômeno político relevante, portanto, talvez não seja uma suposta conversão automática do eleitor para a direita. É o envelhecimento do próprio eleitorado. Quem disputar eleições no futuro terá de compreender um cidadão com prioridades diferentes. Um eleitor preocupado com aposentadoria e saúde. Um eleitor que pode possuir patrimônio acumulado. Um eleitor que pode depender simultaneamente do sistema público de saúde e da Previdência. Um eleitor que poderá permanecer politicamente ativo durante muito mais tempo. A política também envelhece O estudo internacional de Rekker traz outro alerta importante. Em muitas democracias, a substituição das gerações mais antigas por millennials e integrantes da geração Z vem provocando mudanças eleitorais significativas. A pesquisa encontrou que as gerações mais recentes são, em diversos sistemas políticos, menos propensas a apoiar os grandes partidos tradicionais de direita e também alguns partidos tradicionais de centro-esquerda. Partidos verdes, liberais e determinadas forças socialistas aparecem, em alguns países, entre os beneficiários dessa renovação geracional. Isso significa que existe uma disputa acontecendo simultaneamente em duas direções. De um lado, o eleitorado brasileiro envelhece. De outro, novas gerações chegam às urnas carregando valores e referências políticas diferentes das gerações anteriores. O resultado político será determinado pelo encontro dessas duas forças. Não estamos necessariamente ficando mais de direita A evidência disponível, portanto, permite uma conclusão mais cuidadosa. Há indícios de um pequeno efeito conservador associado ao envelhecimento individual. Mas ele é insuficiente para sustentar a ideia de que todos inevitavelmente caminhamos para a direita conforme ficamos mais velhos. As diferenças entre gerações parecem ser muito mais importantes. O contexto econômico importa. A religião importa. A renda importa. A região importa. E acontecimentos políticos capazes de transformar uma eleição também importam. O Brasil está envelhecendo. Isso é um fato demográfico. Se esse envelhecimento produzirá um país mais conservador, mais progressista ou simplesmente politicamente diferente é outra questão. Talvez a pergunta fundamental das próximas décadas não seja se seremos mais de direita ou mais de esquerda. Talvez seja: quem será o eleitor brasileiro quando um terço do país estiver próximo ou acima dos 60 anos? Porque a demografia não determina sozinha o resultado de uma eleição. Mas ela altera profundamente o terreno em que a política é disputada.
FONTES REKKER, Roderik. Electoral change through generational replacement: An age-period-cohort analysis of vote choice across 21 countries between 1948 and 2021. Frontiers in Political Science, v. 6, 2024. DOI: 10.3389/fpos.2024.1279888. Pesquisa baseada em 258 estudos eleitorais de 21 democracias e 462.084 entrevistados. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL – TSE. Eleições 2026 em números: 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar. Brasília, outubro de 2026. DATAFOLHA. Com 58%, Bolsonaro larga com vantagem de 16 pontos no 2º turno. 11 out. 2018. DATAFOLHA. Lula mantém 47% das intenções de voto, e Bolsonaro vai a 32%. 19 ago. 2022.
